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24/02/2010
FISIOLOGIA CHINESA E ESPIRITUALIDADE
JURACY CANÇADO


Visionário, como todo grande poeta, Kafka disse que nós perdemos o Paraíso por impaciência e não retornamos por preguiça. E, com essa bem humorada metáfora, descreveu com precisão a dinâmica da patologia humana, polarizada entre os extremos da impulsividade inconsciente e a compulsão repetitiva do apego ao conhecimento.

Mas se a queda do Paraíso é cair da Unidade para a polaridade, nossa condição humana é a de vagar pelo mundo dos opostos em busca da compreensão vivenciada de que os contrários não se contradizem, mas se complementam e se integram. E, meta suprema, transcender o dicotômico domínio da dualidade através dele, não negando - pois, como ensinou Hegel, suplantar é ao mesmo tempo negar e preservar.

No daoísmo, o palco deste eterno retorno tem o nome de Tai Ji, literalmente "o limite do vazio". Ali, o sem limite conhecido na era da inocência só será reconquistado pela consciência que, para recordar a sua infinitude tem igualmente que se afirmar como parte. Daí o aparente paradoxo de se encontrar na forma e se ali perder para se reconhecer maior, posto que a vocação da alma não é a perfeição, mas a liberdade. E o único caminho possível é o mundo, onde trazemos nossa confusão espiritual à luz do dia a fim de ultrapassá-la pela experiência. A doença, que é anterior ao homem, somente por meio dele será curada.

Na terapia chinesa, este processo de refinamento da consciência inclui necessariamente o corpo, já que é no corpo que toda a obra se realiza. Assim, todas as práticas corporais chinesas se norteiam pela fórmula "transformar o Jing (essência) em Qi (energia vegetativa), e o Qi em Shen (espírito)". Nesse sentido, a espiritualidade chinesa é radicalmente visceral, já que os órgãos físicos metabolizam não apenas a energia, mas a própria consciência. E é esta que confere sentido ao todo sistêmico, a um tempo fechado em si e aberto às alterações do externo. Pela ótica sincronística chinesa, os domínios do mental e do somático não exatamente produzem entre si efeitos recíprocos numa relação de casualidade. Antes, "ocorrem juntos no tempo", constelando-se como um bloco unitário, em resposta às evoluções cíclicas do Tai Ji. Por essa lente funcional os órgãos físicos - particularmente aqueles representados pelos meridianos energéticos - servem de base para um conjunto coerente de operações que incluem o mental, o psíquico e todas as expressões do espírito. Mas embora focada no somática, tal visão nada tem de organicista: a ideia central é que ali se encontra implicada, "dobrada", a essência ou Jing, a qual se desdobra nos processos submentais do Qi e se faz consciente como Shen.

A rigor, o chinês identifica 5 diferentes expressões do Shen, processadas nos órgãos de representação dos Cinco Movimentos do Tai Ji - Madeira, Fogo, Terra, Metal e Água. Em razão desse simbolismo arquetípico, Fígado, Coração, Baço-Pâncreas, Pulmões e Rins, respectivamente, expressam no corpo a dinâmica cósmica, psiquicamente representada por afetos e emoções chaves. Nessa trama interativa, o Coração - sede do Grande Shen, a síntese do psiquismo - ocupa o topo hierárquico. E, embora o nível de consciência resulte das interações dos cinco aspectos do Shen, pode-se falar da atividade do Fígado, representante do movimento germinativo da Fase Madeira, como uma função relativamente decisiva na condução dos comportamentos.

Encarregado de dar início aos processos de adicionar e coordenar o metabolismo por meio da agressividade criativa, cuja correspondência fisiológica é a bile, o Fígado tem posição de comenado. Relaciona-se com os olhos e a visão - física, psicológica e espiritual -, com a habilidade de enxergar com clareza para objetivar a ação. Berço da alma, cabe a esse oficial do corpo-mente ordenar os impulsos bombeados pelo interno. Tais impulsos têm como destino o mundo, mas é no Coração que ganham sentido e são legitimados como expressão amorosa. E quando isto não ocorre, a frustração será sentida como raiva.

Na psicoterapia somática chinesa a raiva á um sentimento legítimo como sua polaridade, o amor, pois ambos são condutores do afeto. O que os distingue é o grau de sofisticação e lucidez que expressam. Identificar, autenticar e lapidar a raiva original antes que a frustração a transforme no sentimento esvaziado de afeto - o ódio - é um fundamento terapêutico.

É principalmente esta raiva cega que irá condicionar o nosso estilo de vida, e mesmo a maneira como morreremos. Quando destruída de sentido, induz o ser à dicotomia que o afasta ainda mais do Paraíso: à ação sem ponderação, "impaciente" ou, no outro extremo, à regressividade depressiva, amedrontada, da preguiça espiritual. E, como é através dos olhos que o amor atinge o coração, a auto-aceitação - amor por si mesmo - terá sempre que se contrapor e se complementar com uma certa insatisfação na alma.
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