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01/03/2010
UMA VISÃO INTEGRAL DA CONSCIÊNCIA PARA TEMPOS DE CRISE
JURACY CANÇADO


Considerado o mais abrangente pensador filosófico dos nossos tempos, o psicólogo transpessoal Ken Wilber vem provocando um misto de admiração e incômodo nos bem defendidos domínios feudais do saber, com seu enfoque integrativo que entrelaça verdades e denuncia sectarismos de quase todos os campos do conhecimento humano.

O objetivo primário dos estudos integrais de Wilber é exaltar uma visão de mundo universal, oculta sobre diferentes formas e metáforas, resgatando aquilo que foi chamado de "filosofia perene" ("perene" porque imune aos desgastes provocados pelo tempo). Seu segundo passo é promover um diálogo entre essas distintas abordagens e arranjar suas verdades em cadeias de conclusões interligadas, de forma a conectar coerentemente o maior número de áreas da indagação humana.

Aos que o acusam de praticar o sincretismo irresponsável a partir de generalizações indevidas, Wilber reafirma com clareza o argumento central de seu trabalho: "Não creio que nenhuma mente humana seja capaz de 100% de erro. Assim, em vez de nos perguntarmos que abordagem está certa e que abordagem está errada, assumimos que todas são verdadeiras, mas parciais, e então tentamos descobrir como combinar essas verdades, como integrá-las - e não como selecionar uma e descartar as outras -. E lembra que tem sido criticado - algumas vezes de forma irada - não por interpretar mal qualquer conhecimento que aborda, mas por incluir temas e áreas que seus críticos a priori não reconhecem e desdenham.

Certezas Parciais

Essa ciência preconceituosa, que ele chama de monológica, é o objeto principal da sua rigorosa, mas compassiva, teoria crítica. De fato, ele não critica as verdades desta ciência, as quais incorpora, mas sim seu enfoque parcial e excludente. Em um de seus últimos livros, "O Olho do Espírito", Wilber responde com elegância e surpreende erudição a uma série de ensaios assinados por alguns dos maiores teóricos da consciência, todos publicados pelo conceituado "ReVision Journal", em edição especial de 3 volumes totalmente dedicada ao seu trabalho.

Neste livro, ele se apóia em seu renomado modelo do "espectro da consciência" - que parte da premissa de que a consciência, bem como a realidade que ela traduz, compõe-se de distintas dimensões, que vão desde a tridimensionalidade pré-consciente da matéria até as multidimensões transconscientes do espírito. Medicina, biologia, neurofisiologia, praticamente todas as linhas da psicologia do desenvolvimento, antropologia, arte, teoria literária, filosofia, física, teoria dos sistemas, ecociência, feminismo e as principais escolas místicas das grandes tradições do Oriente e Ocidente fazem parte desse colossal território remapeado a partir da sua ótica integratica.

As Três Ondas de um Movimento

Por fim, Wilber aproveita para situar seu trabalho dentro das promências dos tempos atuais, identificando as "três ondas" que o movimento do potencial humano vem atravessando nas últimas décadas.

Emergindo do caldo contra-cultural dos anos 60, a Primeira Onda reflete o espírito daquela época: um movimento explosivo e radical voltado para soluções rápidas por meios de workshops de fins de semana e seminários de autotransformação em curíssimo prazo. Dez anos depois, constatou-se que essas "experiências de pico", embora úteis para um despertar inicial, geravam resultados que rapidamente se diluíam, algumas vezes deixando mais conflitos que benefícios.

O aprofundamento através de práticas verdadeiramente transformadoras envolvendo disciplina, perseverança e tempo, marcou a tônica da Segunda Onda. Mas até mesmo esse compromisso duradouro com uma valiosa linha de crescimento, vivenciado com intencionalidade e dedicação constantes, mostrou incômodas limitações: o desenvolvimento de uma faculdade isolada do potencial humano, em detrimento das demais, pela resultante assimetria dos seus fluxos de crescimento. O contraste entre uma linha de desenvolvimento super-evoluída e outras atrofiadas deixou muitos praticantes dedicados numa situação de desconforto e desorientação.

Finalmente, a fase de trabalhos de crescimento específico começa a dar lugar a um movimento de prática integral, uma Terceira Onda, marcada pelo diálogo e o intercâmbio entre os diferentes aportes ao amplo espectro do ser. É nesse cenário dialógico que vem sendo articulado o discurso de um novo modelo cognitivo, uma nova descrição de mundo resultante de abordagens multidisciplinares e multi-culturais cuidadosamente entrançadas de forma a preencher as brechas deixadas pelo escopo parcial inerente a cada aporte isolado.

Na tecedura desse paradigma genuinamente holístico se entrelaçam linhas urdidas nas grandes tradições da sabedoria e nos postos avançados da ciência de vanguarda. Do diálogo entre taoísmo e psicologia profunda, zen-budismo e psicanálise, vendata e fenomenologia existencial, xamanismo e estados alterados de consciência, busca-se extrair o melhor de dois mundos, o antigo e o moderno. Mas isso, esclarece Wilber, requer constante coragem moral e renovada postura crítica disposta também a rejeitar, com firme imparcialidade, o pior de ambos.
É evidente que o cenário descrito em nada se assemelha à realidade caótica dos nossos tempos atuais. Mas sabemos que momentos críticos precedem grandes transformações. No hexagrama 3 do I Ching, "Dificuldades Iniciais", somos lembrados que a fase inicial de um processo é uma constante lida com obstáculos: "ao nascer, todos os seres são frágeis". Descrevendo por outro prisma, Max Planck comenta que mudanças de paradigma avançam de funeral a funeral. Para que o novo surja é necessário que a forma anterior se desintegre, mas isso não significa uma mera substituição de modelos. Crescimento implica, não em negar a fase precedente, mas em incluí-la e transcendê-la, preservando sua essência.

Na realidade, os estudos e práticas integrativas se edificam entre duas frentes de combate. De um lado a resistência preconceituosa de um modernismo monológico, com seus cientistas de "cabeça dura e coração frio", na definição de Fritjo F. Capra. No outro flanco, um tradicionalismo com nuanças retro-românticas que glorifica o ontem e rejeita qualquer validade nos progressos alcançados pelo modernismo.

Mas o atual estado germinativo dessa tendência abrangente não impede que já seja reconhecida por mentes e corações sensíveis como o único modo de compreensão do incomensurável potencial de transformação do ser humano e das realidades que o envolvem. É por meio desse trabalho gigantesco que o homem se surpreende e se descobre maior, à altura de sua obra. E é esse o desafio do nosso tempo. Em nome dos mais lúcidos e genuínos visionários desse chamado "novo paradigma", Wilber convida a "pegar a crista da Terceira Onda". Afinal, pode haver um modo mais excitante de surfar na consciência?
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